Moda de segunda mão: brechós são fontes de renda e proteção ao meio ambiente
Conceito de moda circular une preocupação socioambiental e o uso mais duradouro
das roupas. Alto Tietê tem, pelo menos, 237 MEIs no comércio varejista de
produtos usados.
Beatriz Faria de Oliveira Alves, de 22 anos, fundou o próprio brechó em
janeiro de 2020 — Foto: Beatriz Faria de Oliveira Alves/Arquivo pessoal
Abrir o guarda-roupas e ter a sensação que não tem nada para vestir. Quem nunca
passou por isso?
Mas a peça pendurada no cabide que talvez não seja mais do seu interesse pode
vestir outra pessoa, render um “dinheirinho” e de quebra ajudar o meio ambiente.
É justamente isso que o conceito de moda circular prega: preocupação
socioambiental e o uso mais duradouro das roupas. Ao invés de descartar as
roupas e calçados depois do uso, a ideia é que eles voltem ao mercado.
E os brechós têm um papel importante na moda circular. Esses comércios são
verdadeiros “garimpos” de itens que podem ampliar o closet sem pesar no bolso.
Um levantamento feito pelo Sebrae-SP, com base nos dados do Portal do
Empreendedor, aponta que o Alto Tietê tem, pelo menos, 237 microempreendedores
individuais (MEIs) no comércio varejista de produtos usados.
O levantamento leva em consideração todo o ano de 2024 e os primeiros dias deste
ano. Ou seja, de 1º de janeiro de 2024 ao dia 4 de janeiro deste ano, 237
pessoas estavam registradas no Portal do Empreendedor, na categoria de comércio
de artigos usados.
A analista de negócios do Sebrae-SP, Priscila Tanihara, avalia que o comércio de
moda circular tem ganhado destaque nos últimos anos, impulsionado por vários
fatores. Um deles é o cuidado com o meio ambiente, afinal comprar em brechó é
uma forma de reduzir o desperdício e prolongar a vida útil das roupas.
O aumento de MEIs na categoria de comércio de artigos usados cresceu 41,9% se
comparado a 2019, período antes da pandemia da Covid-19, em que o número estava
em 167.
“Com a pandemia, houve uma mudança na forma de consumir, com foco no comércio
local. Esse período também marcou o aumento da busca pelo empreendedorismo, seja
pela realocação no mercado de trabalho ou por renda extra. Muitas pessoas
passaram a desapegar de itens, especialmente pela internet, e, por isso, muitos
empreendedores viram nos brechós um nicho promissor”, explica Priscila.
Ela completa que também houve uma procura por um consumo mais consciente e
sustentável, tendência impulsionada principalmente pela geração Z, formada por
jovens que aderem com mais naturalidade à moda circular, demonstrando um desejo
por autenticidade.
A busca por uma renda extra fez Beatriz Faria de Oliveira Alves, de 22 anos,
dar vida ao próprio brechó, em janeiro de 2020. Atualmente, a página do
empreendimento nas redes sociais acumula mais de 12 mil seguidores.
“Eu queria ganhar uma grana extra antes da faculdade, fiz um ano de medicina
veterinária e, depois, decidi mudar para marketing por conta do crescimento do
brechó”, afirma.
Entretanto, o consumo sustentável não começou somente no momento de vender as
peças. A empreendedora conta que a mãe dela foi a maior influência para o
conhecimento da moda circular.
“Minha mãe me levava em bazares de igrejas, comprava peças usadas das amigas
dela… Então sempre consumi, nunca tive problema em usar roupa de segunda mão.
Inclusive, hoje em casa priorizamos comprar tudo de brechó – até mesmo para o
meu sobrinho que ainda é criança”, diz.
E não para por aí. Beatriz carrega consigo histórias de clientes que mudaram o
olhar para a moda “second-hand”: uma cliente já contou que doou as roupas que
não queria mais e transformou todo o guarda-roupa só com peças de brechó; outra
que tinha um certo “preconceito” com a compra de usados, decidiu dar uma chance
e passou a comprar somente em brechós; teve uma outra que apresentou o brechó
para a mãe e a irmã e, hoje, elas são clientes fiéis e sempre presenteiam umas
as outras.
A empreendedora explica que comprar em brechó ajuda no meio ambiente, mas
ressalta que é preciso que quem estiver comprando entenda o propósito final do
brechó: que é o consumo consciente e sustentável. “No meu brechó eu sempre prezo
em lembrar o objetivo de que a rotatividade de peças é o que importa. Se a
pessoa está comprando uma peça, ela precisa tirar alguma do guarda-roupa
também”, afirma.


