Hoje o céu amanheceu branco e verde: como Leminski, torcedor do Athletico, celebrou o Coritiba em 85
Poeta aceita o convite de revista e escreve um poema à conquista do Coritiba, campeão brasileiro
O herói coxa-branca: Rafael Cammarota relembra título brasileiro de 1985 pelo Coritiba [https://s02.video.glbimg.com/x240/13804173.jpg]
O herói coxa-branca: Rafael Cammarota relembra título brasileiro de 1985 pelo Coritiba
Em 1º de agosto de 1985, o futebol paranaense vivia um dia histórico. O Coritiba conquistava o Campeonato Brasileiro [https://ge.de/pr/futebol/brasileirao-serie-a/jogo/31-07-1985/bangu-coritiba.ghtml], um feito que também reverberou entre os rivais, especialmente um rubro-negro fervoroso: o poeta Paulo Leminski.
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Conhecido por uma inteligência afiada e o amor pelo Athletico, Leminski recebeu um inusitado convite da revista Placar: escrever um poema em homenagem ao título coxa-branca.
Havia uma apreensão natural quanto à aceitação do poeta. Afinal, pedir a um torcedor fanático que celebrasse a glória do maior adversário poderia parecer uma afronta.
— Leminski foi solícito e concordou em agraciar a conquista coxa-branca com uma linda crônica que foi publicada pela revista na edição histórica que foi às bancas na primeira semana de agosto de 1985 — disse o historiador do Coritiba [https://globoesporte.globo.com/pr/futebol/times/coritiba/], Flavio Henrique Soethe.
“O PRIMEIRO”: AS HISTÓRIAS DO TÍTULO DO CORITIBA, QUE COMPLETA 40 ANOS [https://ge.globo.com/pr/futebol/times/coritiba/noticia/2025/07/30/o-primeiro-as-historias-do-titulo-do-coritiba-que-completa-40-anos.ghtml]
Museu do Coritiba tem poema de Paulo Leminski feito para o título de 1985 — Foto: Daniel Piva/ge
A resposta demonstrou profissionalismo e também um espírito que transcendia a rivalidade entre os clubes. O poema, enviado à Placar no mesmo dia 1º de agosto e publicado na edição de 9 de agosto, eternizou a emoção daquele momento e hoje ocupa uma das paredes no Museu da Glória, localizado no estádio Couto Pereira.
— Hoje, 1º de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde — dizia o trecho inicial, capturando a essência daquele dia inesquecível.
BANGU X CORITIBA: VEJA COMO FOI A FINAL DE 85 [https://ge.globo.com/pr/futebol/brasileirao-serie-a/jogo/31-07-1985/bangu-coritiba.ghtml]
A Glória, as Relíquias e o Mistério: O título histórico do Coritiba como você nunca viu [https://s03.video.glbimg.com/x240/13800774.jpg]
Paulo Leminski, um autor à frente do seu tempo, já era figura respeitada no meio intelectual, embora sua fama tenha crescido exponencialmente nos últimos anos de sua vida. Nascido em 1944, filho de pai polonês e mãe negra, ele morreu em 1989, aos 44 anos.
A obra de Leminki, marcada pela irreverência e descontração, o tornou um autor “alternativo” e uma voz singular na literatura brasileira. Hoje, o legado do poeta é celebrado em Curitiba, dando nome à Pedreira Paulo Leminski, um dos cartões-postais da cidade.
Paulo Leminski — Foto: Arquivo/Gazeta do Povo
CONFIRA O POEMA NA ÍNTEGRA
Hoje, 1º de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde. Os passarinhos só diziam: Lela, Lela, Rafael, Rafael. E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguetes e pó-de-arroz. Nada mais me restava a não ser filosofar: “Não se pode ganhar sempre”.
E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim, onde tremula o pavilhão rubro-negro, e fiz descer a bandeira dos meus sonhos. E foi com um misto de pesar e júbilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arqueadversário, hoje, aqui e agora, para sempre, campeão brasileiro de 1985.
Um demônio (ou um anjo?) vestido de preto e vermelho (um Exu?) me sussurrava brabo com Tóbi na grande área do Bangu: “Teu time é tua pátria, traidor. Vendeste a lama por um escanteio, vira-casaca. Então, foi para isso que te demos tantas alegrias?”. Nesse momento, recebi um passe do Índio e, vendo que eu estava em campo livre pela esquerda, o demônio rubro-negro preferiu a falta, mas, antes que me atingisse, toquei a bola na perna dele, e foi lateral a meu favor. Foi isso, tudo isso. E muito mais.
Foi ver uma equipe coesa, coerente, bem orquestrada, enfrentar os faixas-pretas do futebol brasileiro, e sair na frente. Foi ver um time de um Estado de poucas glórias esportivas explodir no templo máximo do futebol brasileiro. Foi muito bom saber que futebol não é só coisa de Cariocas, paulistas, mineiro e gaúchos. E, se o título foi nosso, pode bem ser de pernambucanos, baianos, catarinenses e capixabas, de goianos e mato-grossenses, brancos, negros e mulatos queridos do meu Brasil, que escrevem com os pés a arte maior do meu país.
O futebol é o termômetro, a radiografia do Estado do Brasil.
Seria por acaso que, nestes tempos de insuportável dívida externa, nossos grandes craques estejam lá fora, na Europa, com os números que selam nossa dependência aos bancos estrangeiros? Não, com mil pênaltis, não. No Brasil, se o futebol vai bem, é sinal de que as coisas estão indo bem. Se o futebol vai mal, algo vai mal na terra de Pelé, Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo e daquele reserva de ponta-esquerda do Náutico, do Ferroviário, dos Nenecas, Tatas, Paquitos, Muçuns e Evaristos, que fazem as alegrias dos nossos domingos.
Este título do Coritiba, de um time de tradição, mas interiorano, é um título da democracia, um título da Nova República, um título para todo mundo que só senta nas arquibancadas do Maracanã como crianças pobres em volta de uma grande fogueira esperando gritar gol, como quem espera que lhe joguem a alegria de um pedaço de pão.
Obrigado, Coritiba, por essa alegria. Você esteve à altura do teu destino.
Paulo Leminski, para a revista Placar.
Defesa de Cammarota na semifinal contra o Atlético-MG no Brasileiro 1985 — Foto: Acervo/Arquivo Coritiba
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